O dia em que arranquei a bandeira do Brasil
Eu entendo muito pouco de futebol. O básico. Mas ontem, por conta da Copa, eu entendi um pouco mais sobre mim.
Na sacada do meu apartamento, pendurei bandeiras e bandeirinhas. Estava animada. Como milhões de brasileiros, eu queria acreditar que o Hexa ainda era possível. Aí veio o segundo gol. Na mesma hora, levantei, tirei os enfeites e desliguei a televisão. Fiquei ali, naquele silêncio, incrédula.
Hoje, refletindo sobre aquela cena, fiquei pensando: por que fiz isso?
Não foi só porque alguém perdeu um pênalti ou desperdiçou uma chance cara a cara de gol. Aliás, isso é o futebol. Às vezes, a bola simplesmente não entra. Tivemos oportunidades, mas não era o nosso dia. Também não quero discutir escalação, técnico ou tática; não tenho conhecimento para isso.
O que ficou na minha cabeça foi outra coisa.
Quando arranquei aquelas bandeiras, percebi que minha frustração não era apenas pela eliminação em si, mas por tudo o que a Copa representa: as reuniões em família, o churrasco, a pizza, o café preparado antes do jogo, as mensagens no grupo, os amigos e familiares reunidos. Aquela sensação rara de um país inteiro (e até gente fora dele) vibrando e torcendo pela mesma bandeira.
Durante alguns dias, a Copa consegue fazer algo que poucas coisas conseguem: ela nos dá uma pausa. Funciona como uma espécie de anestesia coletiva. Por alguns instantes, esquecemos os boletos, o trabalho, as notícias tristes e até parte da polarização que domina o Brasil hoje. Com a dor do cotidiano adormecida, voltamos a torcer juntos. E quando a Copa acaba para nós, parece que o efeito passa de uma vez e alguém nos devolve, sem pedir licença, para a realidade.
Anos atrás, quando voltei de uma viagem ao exterior, lembro que fiquei dias deprimida. Um vazio absurdo que, na época, nem entendia. Hoje entendo melhor. Não era apenas a viagem ou o país visitado; era o que ela representava. Alguns dias vivendo uma realidade mais leve, lúdica e bonita. Um lugar onde, por um tempo, eu não precisava pensar tanto nas responsabilidades e nos pesos da vida adulta. Era como se eu tivesse sido retirada da rotina e colocada dentro de uma bolha de encantamento. E quando a bolha estourou, no retorno, a realidade pareceu pesada demais.
Ontem, senti algo parecido. A Copa tem esse poder estranho de transformar dias comuns em eventos. Faz uma terça-feira parecer feriado. Faz gente que nem acompanha o esporte vestir verde e amarelo apenas para torcer por algo em comum. Acolhemos, vibramos e sofremos por países que nem todos conheciam até então. Por algumas horas, a vida parece menos fragmentada.
Mas quando o Brasil perde, é como se alguém desligasse a música no meio da festa. A decoração continua ali, a comida ainda está na mesa, mas o clima mudou. A gente lembra que amanhã o trânsito, a política e as preocupações continuam no mesmo lugar. Talvez tenha sido isso que doeu: o fim da magia coletiva.
No fim, a maior reflexão não foi sobre futebol. Foi sobre como reagimos quando nossos planos falham, e sobre como buscamos pequenas fugas para suportar a dureza do cotidiano. Uma derrota coletiva consegue revelar muito daquilo que carregamos individualmente.
Talvez eu tenha arrancado aquelas bandeirinhas porque, inconscientemente, sabia que elas representavam o estouro de uma bolha mágica. A volta compulsória para a realidade.
Mas a vida não pode depender da próxima Copa, de uma grande viagem ou do feriado seguinte para ser mais leve. O verdadeiro desafio é construir pequenas pausas no meio do caminho. Mais encontros, mesas compartilhadas, risadas e tempo com quem amamos. Mais motivos simples para celebrar, mesmo quando não existe taça em jogo.
Nenhuma competição ou viagem dura para sempre. Mas a forma como escolhemos viver entre uma e outra, essa sim, está um pouco mais nas nossas mãos.
As bandeirinhas eu posso pendurar de novo. O que espero não repetir é a reação impulsiva de arrancá-las antes de entender por que aquela derrota doeu tanto.
Marjory Santos
Escritora e autora de Pausa Profissional. Depois de mais de dez anos no ambiente corporativo, escolheu parar. A pausa virou travessia, e a travessia virou livro.